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A arte de produzir efeito sem causa

Esse título veio do incrível Mutarelli, (A Arte de Produzir Efeito Sem Causa - Companhia das Letras - 2008), e é uma frase que me ocorre aleatoriamente na vida. Ela diz respeito ao modo de vida do artista - a arte que não encontra ninguém para apreciar, a arte que nasce incondicionada, pois o artista precisa dar vazão a ela.

Também me ocorre ser uma alegoria para o Mito - categoria tectônica da civilização e sua relação com o Logos. Isso vêm da leitura de uma autora chamada Karen armstrong. Essa análise fundamental nos ensina que existem dois paradigmas no desenvolvimento humano e que podemos usar eles para entender porque a religião possui tanto poder mesmo na era atual, e porque a ciência sempre terá um ponto cego. Nas palavras dela:

Mythos (Mito): Segundo ela, a verdade da religião situa-se no plano do mythos, que não é racional nem empiricamente demonstrável, e não possui finalidade prática. O mito refere-se ao que se julga intemporal e constante, reportando-se às origens e a significados, e atua no subconsciente para fornecer um contexto que dá sentido ao cotidiano.

Todos esses movimentos têm em comum o anseio de retornar ao que considerara
ser as fontes - os fundamentos - de suas respectivas religiões. Todos se
caracterizam, pelo repúdio á modernidade, cujas descobertas e teorias
científicas muitas vezes contradizem a verdade mítica de seus livros
sagrados, constituindo, por isso, uma suposta ameaça à sobrevivência de sua
fé.

Logos (também "lagos"): A verdade da ciência, da história e da política situa-se no plano do logos, que engloba os pensamentos racionais, pragmáticos e científicos. Ao contrário do mito, o logos precisa ater-se aos fatos e focar na eficiência para produzir resultados no mundo exterior profano.

Igualmente importante, os lagos é os pensamentos racionais, pragmáticos e
científicos que permite a boa atuação do homem no mundo. (...) Para ser
eficaz, o lago, ao contrário do mito, precisa ater-se aos fatos e
corresponder a realidades exteriores. Precisa funcionar com eficiência no
mundo profano. Usamos esse raciocínio lógico e discursivo quando temos de
suscitar acontecimentos, conseguir alguma coisa ou convencer os outros a
adotarem determinado procedimento. O lago é prático. (...) o lago avança e
tenta encontrar algo novo: explorar velhas percepções, adquirir maior
controle sobre o meio que nos cerca, descobrir e inventar novidade.

Karen Armstrong, em *Em nome de Deus: O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo afirma que mythos e logos são duas formas complementares de se chegar à verdade, sendo que no mundo pré-moderno ambas dependiam uma da outra para que a vida humana não empobrecesse. Eles ocupam esferas radicalmente separadas: o logos* é essencial para conquistas práticas, mas possui limitações estritas, pois não consegue decifrar o sentido da vida nem aliviar o sofrimento humano, papel que compete unicamente ao mito e ao culto.

A autora argumenta ainda que é extremamente perigoso confundir seus discursos: tomar o mythos como base para uma política pragmática gera consequências desastrosas, e a tentativa de misturar mythos e logos (tratando verdades religiosas como se fossem demonstrações empíricas) constitui o "equívoco fatal" que alicerça o fundamentalismo moderno.


Então que a arte de produzir efeito sem causa é uma provocação ao Logos, mas não um engajamento no Mythos. Essa capacidade do artista de navegar entre paradigmas, e de, portanto, ser incapaz de reacionarismo e fundamentalismo é tudo que define minha própria forma de pensar politicamente e de se relacionar com o mundo. Lembrando que a polarização política é uma forma de controlar as massas que as elites desenvolveram. No fundo somos todos parte de um todo.

Cuiabá 13 de abril de 2026

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