
Gravei quase tudo. Entre a manhã de quarta, 21 de outubro, e a noite de quinta, deixei no gravador mais de vinte áudios: na cozinha, no mercado, na estrada, à beira da água. Isso me dá uma vantagem rara sobre a memória, que embeleza, e um embaraço proporcional: o arquivo me desmente justo onde eu gostaria de ter razão. Escrevo entre as duas coisas, o que lembro e o que gravei. Quando discordarem, fico com o gravador.
Os estudos sobre natureza registrariam o episódio como "três horas de exposição a ambiente natural". O modelo de dose perde quase tudo: os 80 km de ida, as horas junto à água, os 80 km de volta. Perde também que tudo isso coube numa semana de eleição que já doía no corpo, e no quarto, quinto dia sem cannabis, que doía de outro jeito. Montaigne avisa em "Do arrependimento": je ne peins pas l'être, je peins le passage, não pinto o ser, pinto a passagem. É o que tento aqui. Não o que a cachoeira é, mas o que passou por mim antes, durante e depois dela.
Da véspera
A viagem não começou na estrada. Começou na quarta, às onze e meia da manhã, no meio de um desabafo que eu mesmo encerrei chamando de "17 minutos de muita reclamação". Estava fritando cebola. Antes da cebola, tinha passado horas na internet sem começar o trabalho, brigado por dentro com um post do Bluesky, lembrado que já não tenho o CVV para me tirar de casa e constatado que tenho 42 anos e "é óbvio que eu tô infeliz". No meio disso, quase como quem muda de assunto, aparece o plano: ir de bicicleta elétrica até a Chapada e voltar no mesmo dia. O diagnóstico vinha no mesmo fôlego: "o problema é a internet", "pra mim faria bem ficar longe das redes".
Relendo, noto que o plano nasce dentro da queixa, e não depois dela. Não é a solução de um problema bem posto. É uma porta que se abre enquanto ainda reclamo da sala. E faz efeito antes de ser cumprido. Naquela tarde saí para comprar pasta de amendoim, doce de leite, uva-passa e uma bomba de pneu, esta com um senhor da bicicletaria do Tijucal. Às quatro registrei: "o clima tá horrível, mas pedalar me fez bem". Disse também, com uma vaidade que hoje me diverte, que a logística é a melhor parte, "onde você realmente vê onde tá a sua inteligência". O cérebro, porém, recusava a preparação: "ele quer a parte boa, mas não quer a parte chata de se organizar". Fui dormir sem saber se iria.
Do que não pede nada
Numa semana de eleição, quase tudo na internet se dirige a quem está olhando. Cada post pede reação, posição, medo ou indignação, e é desenhado para capturar atenção. A cachoeira é o oposto: indiferente a quem a observa, não quer adesão, não argumenta, não convoca ninguém.
Há aí uma inversão do desinteresse kantiano. Em Kant, o desinteresse é de quem contempla. Aqui é também do objeto contemplado. Os Kaplan, na Attention Restoration Theory, chamam de soft fascination a atenção que se sustenta sem esforço e não se fecha num ponto, e a água caindo talvez seja o exemplo perfeito. O feed também fascina, mas de modo duro: captura, comprime e cobra.
O gravador confirma metade disso. Por volta da uma da tarde, sentado na pedra, eu disse: "minha ansiedade caiu, não tô ansioso, e eu não tô acostumado a não estar ansioso". Essa frase me parece o centro do dia. Ela não registra prazer. Registra a estranheza de uma ausência.
A outra metade, o gravador desmente. A cachoeira não me pedia nada, mas eu continuava respondendo a quem não estava lá. Ao meio-dia me queixei do celular, que "só me traz raiva e tristeza", e o pus para carregar mesmo assim. Às três da tarde, já de saída, falava de queimadas, de terras indígenas, de parques como aquele "ameaçados". Meia hora depois, na hora de descer a serra, chamei as duas cidades entre as quais eu pedalava de cidades "de bolsonarista". O mundo que me interpelava pelo feed subiu a serra comigo, dentro da cabeça.
Montaigne conta, em "Da solidão", que alguém se queixou a Sócrates de não ter melhorado com as viagens. "Acredito", respondeu Sócrates, "ele se levou consigo." Horácio já dizia: caelum, non animum mutant qui trans mare currunt, quem corre além-mar muda de céu, não de alma. Mudei de céu por algumas horas, e a alma levou a eleição junto. O que a cachoeira fez não foi calar a interpelação. Foi deixar de amplificá-la. Na sala, cada pensamento sobre o país encontrava um post que o confirmava e o empurrava adiante. Na pedra, o mesmo pensamento caía na água e não voltava.
corpo e limite
A estrutura do dia lembra a peregrinação descrita por Victor Turner, que retoma o esquema de Van Gennep: separação, tempo liminar, retorno. Mas a separação, como disse, começou na véspera, e o limiar não foi a cachoeira. Foi um ponto preciso da estrada.
Saí às sete e meia. Às oito e vinte, passando pelo batalhão da rodovia, batizei o passeio de "pedalada da reclusão, pedalada do afastamento". Estava bem, com música nos ouvidos e "esse visual maravilhoso". Meia hora depois, honesto, gravei: "Não tô tendo pensamentos profundos, nem insights, nem pensando na impermanência, nem na morte". E isso enquanto passava por gafanhotos mortos e por um tatu atropelado no acostamento. "Tô desconectado do mundo espiritual… achei que a natureza fosse fazer isso pra mim." Disse ainda que estava "anestesiado espiritualmente e mentalmente", e culpei as duas semanas de cannabis. A pedalada não começou como meditação em movimento. Começou como fuga bem-humorada de um corpo entorpecido.
O limiar veio depois da Salgadeira, na subida do paredão. A bateria, que eu tinha calculado mal, chegou a 10%, e a bicicleta parou de empurrar. Eram quase quarenta quilos de bicicleta, uns vinte de bagagem e os meus setenta. "Meu coração começou a bater de um jeito que parecia um batuque de subenredo." Parei à sombra, diante de uma placa de propriedade particular com segurança armada. Ali refiz as contas da bateria com a ajuda de uma inteligência artificial, no mesmo dia em que eu dissera não querer usar IA, e esperei o coração voltar. Foi ali também que conheci o Fábio, ciclista de um braço só, com quem conversei longamente e que não me perguntou o nome.
Montaigne foi derrubado do cavalo e quase morreu. Conta em "Do exercício" que esse contato ensinou sobre a morte mais do que os livros, e que há um modo de se familiarizar com ela, chegando perto. Não estive perto da morte, mas estive perto do limite do meu corpo. Depois de dias anestesiado, foi a primeira sensação inequívoca do dia. Curiosamente, as falas mais claras de toda a gravação são as dessa hora de crise, quando eu enumerava contingências: a Salgadeira, o parque, a cidade, a rodoviária. Não há queixa nelas. A ansiedade difusa da sala tinha ganhado um objeto, e um objeto com solução.
Pergunto-me se o efeito seria o mesmo de carro. Não posso saber, é um contrafactual. Mas posso listar o que o carro teria suprimido: - a véspera inteira, que já era parte do remédio; - a subida em que o coração disparou, que foi a passagem propriamente dita; - o Fábio, que conheci porque parei sem fôlego; - a Michelle, do ICMBio, que me deixou carregar a bateria na sede e que conheci porque precisava de uma tomada.
Os dois encontros do dia nasceram de uma vulnerabilidade, e o carro me teria poupado dela. Montaigne diz, em "Da vaidade", que aguentava oito, dez horas a cavalo sem desmontar, "todo cólico como sou". Em "Dos coches", diz que não suportava por muito tempo nem coche, nem liteira, nem barco. Não era romantismo do esforço. É que no cavalo o corpo está dentro da viagem.
A cachoeira em si, a ansiedade que cai, o som da água, provavelmente estariam lá para quem chegasse de carro. O que eu trouxe na volta, e chamei de "bateria cheia, não só da bicicleta, mas minha também, do meu coração", é outra coisa. É esforço, falha, contingência resolvida e generosidade alheia na mesma conta. Às três da tarde eu disse que o passeio vinha "como um coroar" de um mês em que fiz aniversário no dia da eleição e passei pela qualificação três dias depois. Ninguém coroa nada estacionando o carro.
waterfall

A cachoeira tem uma forma estável feita inteiramente de mudança. A água nunca é a mesma, mas a queda permanece. É quase uma imagem didática do que a meditação revela sobre o corpo e sobre o "eu": algo que parece coisa, mas é processo. É, também, a passagem de Montaigne.
No Satipaṭṭhāna Sutta, um refrão se repete a cada exercício: contemplar o corpo no corpo internamente, externamente, e interna e externamente. Logo depois vem a instrução de observar os fatores de surgimento e de desaparecimento. A tradição trata as duas direções como o mesmo exercício aplicado em lugares diferentes. Sentado, observa-se respiração, pulsação, impulso: processos que ninguém fez, que acontecem sozinhos, physis, o que brota por si. Diante da cachoeira, o mesmo tipo de processo aparece do lado de fora, numa escala maior.
Eu gostaria de dizer que meditei diante dela. Não meditei. "Poderia tentar meditar, mas os bichos de repente podem me incomodar." Uma marimbonda tinha me picado na barriga assim que cheguei. Fiz outras coisas: li o Harry Hole e alguns poemas de Augusto dos Anjos, dormi, entrei na água até o umbigo e saí com frio. No fim, já quase indo embora, me pus debaixo da queda. Montaigne escreve em "Da experiência": quand je danse, je danse; quand je dors, je dors. Na pedra eu lia quando lia e dormia quando dormia. Talvez essa fosse a meditação que me cabia naquele dia, embora eu desconfie da comodidade dessa conclusão.
O que o gravador guardou da água não é uma imagem de impermanência, é uma imagem de acolhimento: "me senti bem-vindo, como se tivesse chegado na casa da minha avó, ou do meu avô"; "como se tocasse música, aquele som contínuo, ininterrupto, da água caindo". A queda não me ensinou que nada permanece. Ensinou o complementar: que algo permanece sem pedir nada. Logo em seguida, porém, eu disse sentir "necessidade de me manter em movimento", de manter a língua em movimento. O silêncio me fez bem, e não aguentei muito tempo nele.
E desde então? Na sexta gravei que estava meditando dez minutos por dia. No domingo contei que, na véspera, tinha sentido pela primeira vez algo que a transcrição grafa como "o Diana". Suponho que seja dhyāna, mas é uma suposição sobre um erro de máquina. No mesmo domingo perdi a sessão de zazen e admiti: "não sei por que estou evitando meditar". Em nenhum desses registros a cachoeira reaparece, nem como imagem, nem como ritmo, nem como amplitude. Isso não prova que ela não volte. Prova que não a procurei, ou não a gravei. Por isso deixo como hipótese que a diferença entre as duas experiências seja de escala e de direção da atenção, e não de natureza. A hipótese é bonita demais para eu confiar nela sem mais dados.
três ecologias de Bateson
Bateson, em Steps to an Ecology of Mind, recusa a pele como limite da mente. A mente seria um padrão de circuitos que atravessa organismo e ambiente. O exemplo clássico é o cego com a bengala: onde termina o sistema que percebe? Guattari, em As três ecologias, separa e articula a ecologia ambiental, a social e a mental, e diz que não se cuida de uma isolando as outras. Um ecossistema midiático que degrada a subjetividade é um problema ecológico no mesmo sentido que um rio poluído.
Lida por Guattari, a semana da eleição foi uma crise de ecologia mental e social, e a ida à Chapada foi uma reparação que passou pela ambiental. Os registros acrescentam um detalhe que ele teria apreciado: a reparação social não veio da rede. Veio das pessoas que a viagem pôs no caminho. O Marcelo na trilha, que, como eu, falava mais do que precisava. O José na porteira, o Fábio, a Michelle. E, dois dias depois, na calçada de casa, quatro crianças vizinhas que passaram a tarde comigo enquanto eu tentava encher o pneu de uma bicicleta pequena. "Esse é o Brasil real, né?", gravei. A frase da quarta, "a internet não representa a realidade", encontrou ali o seu outro termo.
Eu tinha suposto que a meditação, treinando a interocepção, tornara o desgaste da internet perceptível como dor física, e o alívio perceptível com nitidez. O arquivo não sustenta isso. Na estrada eu me disse anestesiado, e a prática diária de dez minutos só aparece depois da viagem. Se alguma coisa tornou a experiência legível, foi outra, e talvez mais batesoniana: o próprio gravador. Falei com ele o dia inteiro, no mercado, na subida, na pedra. Ele é a minha bengala. Montaigne diz que se ofereceu a si mesmo como argumento e como matéria. Eu me ofereci ao gravador, e o que sei hoje daquele dia sei porque ele estava ligado. Há nisso uma ironia que não quero resolver: o instrumento que me permite pensar o afastamento das telas é, ele próprio, um aparelho.
volta

A distinção entre uso ativo e passivo da internet pode ser afinada pela pergunta sobre quem se dirige a quem. No uso passivo, a rede interpela, captura e decide o que entra. No uso ativo, você vai buscar algo, pega e sai.
Na estrada, a internet não sumiu. Mudou de função. Foi GPS, foi o áudio que mandei para a Fátima ao sair do parque, foi a conta da bateria no paredão: instrumento, não feed. Na sexta à noite, a tela que me fez bem foi a do Taskmaster, "me senti na companhia de amigos". Logo depois veio um inventário que é quase uma oração de gratidão: um país "que ainda tem paz, que tem espaço, que tem natureza", e um "amor que eu nem sabia que eu tinha". Só agora percebo que esse inventário é o exercício que eu me prescrevera na quarta de manhã, antes do plano: "eu preciso fazer umas meditações de amor e bondade, um exercício de lembrar as coisas boas". Fiz o exercício dois dias depois, sem lembrar que o tinha pedido.
Mas é preciso contar a volta inteira. Na quinta à noite cheguei "imundo, cansado, com bastante dor no cóccix", e também "aliviado, livre, leve, solto", "cansado mais fisicamente, não mentalmente". O efeito durou mais ou menos um dia e meio. No sábado de manhã passei uma hora no Reddit, "scrollando que nem um imbecil". À tarde registrei algo mais fundo que o tédio: "tô mais seguindo pela expectativa do prazer do que pelo prazer em si". Isso não é obra da internet nem da cachoeira. É, quase certamente, a primeira semana sem cannabis cobrando a sua conta. E o último áudio do sábado termina assim: "abrindo redes sociais aqui pela última vez". Pela última vez naquele dia.
Por isso a esperança que eu via no episódio precisa de um ajuste, e acho que sai dele mais sólida. A alternativa ao feed não é uma utopia a construir. É algo que sempre esteve ali. A natureza não precisa vencer a internet, basta que exista um fora. Mas o fora não é portátil. Não o trouxe para casa. Trouxe um corpo cansado que, por trinta e seis horas, precisou menos da tela. O fora não é um lugar que se conquista, é um lugar ao qual se volta. E a frase que talvez melhor resuma o dia nem fala da água. Chegando em casa, entre o lixo para levar e a pizza que demorava, gravei: "eu preciso de coragem mais do que qualquer coisa".
Que sei eu?
O que mudou na volta: o conteúdo da internet ou a relação corporal com ela? O conteúdo, certamente não: a eleição subiu a serra comigo. A relação mudou de função durante a viagem, de feed para instrumento, e não sobreviveu ao sábado. O que mudou de fato foi o corpo, e o corpo cansado deixou a tela menos urgente por um tempo.
O efeito seria o mesmo de carro? A cachoeira, talvez. O resto, não: a véspera, o coração disparado, os encontros que nasceram da minha fragilidade, o coroamento.
Algo da cachoeira reaparece na meditação? Não sei, e não está nos registros. É a única das três que só eu posso responder, e só se gravar logo depois de sentar.
Montaigne mandou cunhar uma ficha com a pergunta Que sais-je? e uma balança em equilíbrio. Fico com a balança. Num prato, uma tarde em que a ansiedade caiu e eu estranhei. No outro, um sábado em que voltei a scrollar. Nenhum dos dois desmente o outro. Os dois são a passagem.
27 de outubro de 2026 · Walker B. Dantas Paniagua
texto criado com ajuda do claude opus que iterou em cima das transcrições de áudios meus e dos prompts:
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recentemente eI fui pra Chapada dos Guimarães
E é difícil explicar o quão bem me fez passar meramente 3 horas ao lado de uma cachoeira
E eu quero aprofundar isso Entender mais profundamente o que isso significou ando para mim Tem que levar in consideration o contexto A gente estava na semana da eleição E meramente ficar na internet já estava se tornando insuportável ... se tornando doloroso ...fisicaamente ruim
a gente passou esse periodo E eu também sinto que essa pequena distância já me ajudou também a ter uma nova perspectiva sobre o próprio uso de internet Que seja de uma forma mais ativa ando passiva Mais ainda me traz esperanças Porque no fim das contas a natureza sempre esteve aí E eu me pergunto também como isso reflete na minha pratica de meditation Porque a meditação você não está encarando a natureza Você está olhando para dentro e para os movimentos Físicos Corporais O que implica another Nature Qual que é a difference beta natureza externa Estudada and a natureza interna the final das Contas não apponta para uma ecologia Eu sei que são perguntas aberta Mas é justamente porque a partir desses tópicos Nós podemos criar uma análise mais completa anda Partindo desse evento único no qual eu participei Que foi esse tempo na natureza In que eu fui pedalando ao longo de 80 km Passar algumas horas no parque National e depois voltei pedalando pra casa E é isso que eu queria discutir
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Eu tô a fim de usar as transcrições que eu já produzi desses últimos dias, especialmente do período que precede o período imediatamente anterior ao passeio de bicicleta para Chapada e o retorno, os áudios que também foram gerados lá e aquilo que foi gerado quando eu voltei, tá? Você tem autorização para ler meus textos, tá? Não precisa usar modelo local, você só precisa localizar exatamente os textos desse dia, que foi exatamente agora, semana passada, na quinta-feira. Mas a gente precisa dos áudios da quarta e da sexta. E a partir disso, a gente vai estabelecer um entendimento geral do ânimo da pessoa, de como ela se sentiu antes, durante e depois, e também responder as seguintes perguntas.
* O que, exatamente, mudou na percepção de volta em casa: o conteúdo da internet ou a relação corporal com ela?
* O efeito teria sido o mesmo sem a pedalada, chegando de carro?
* Na meditação desde então, algo da cachoeira reaparece, como imagem, ritmo ou sensação de amplitude?
Artigo inspirador: Seeing Green: Nature Immersion Has Its Benefits