Hum Blog Qualquer

Porquê eu prefiro esperar ainda que adore saber das novidades

Photo by Aron Visuals on Unsplash

Nunca acredite no hype. Coisas boas levam tempo. Como saber que algo é realmente bom? Pois como dizia Aristóteles já há 350 anos antes de Cristo:

O bem, para o homem, é o exercício ativo das faculdades de sua alma em conformidade com a excelência ou a virtude… Além disso, essa atividade deve estender-se por toda a vida; pois uma andorinha só não faz verão, nem o faz um único dia de sol.

Deduz-se daí que nunca devemos chamar o homem de bom pelos seus atos externos, mas pelo seu caráter. E avançando um pouco mais podemos concluir que muito cedo chamamos aquilo que parece bom de bom. Muito cedo chamamos uma pessoa ou uma obra e as pessoas que fizeram a obra como boas; inversamente, muitas vezes, chamamos algo de mal ou ruim precocemente. Aristóteles diria que medir o caráter de qualquer coisa que seja não é tarefa fácil nem rápida. Mas, aí vai a dica, onde estiver a justa-medida, aí estará a virtude:

A virtude, então, é um estado de caráter concernente à escolha, reside no meio-termo que é definido tendo-se a razão como referência. É um meio-termo entre dois vícios, um de excesso e outro de deficiência; e, de novo, é um meio-termo porque os vícios respectivamente excedem ou ficam aquém do que é correto tanto nas ações quanto nas paixões, ao passo que a virtude encontra e escolhe o que é intermediário.

Hoje dizemos que uma coisa é boa se ela é bem projetada, se tem bons materiais, se se encontra bem arranjada em seus diversos componentes; é uma análise pós revolução científica que já se tornou intuitiva para nós. Porém não foi sempre assim que foi feito e é por isso que conhecer a filosofia clássica sempre é uma boa ideia.

Para eles, [os filósofos da antiga Grécia,] a preocupação principal eram a natureza e o cultivo de um caráter bom; a questão principal não era “Qual a coisa certa a fazer (em tais e tais circunstâncias)?”, e sim “Qual o melhor modo de se viver?”. Dupré, Ben. 50 ideias de Filosofia (Coleção 50 ideias) . Planeta

Isso porque hoje temos a tecnologia que aproxima e converge a opinião das pessoas e cria uma aparente e ilusória maioria consensual; e nem só de Fake News ou hashtags subidas por bots que estamos falando aqui, mas da opinião de centenas de “especialistas” que pipocam aqui e ali; estamos falando da leitura rasa da realidade que o uso de redes sociais em excesso pode e provoca.

E que especialistas. Um tópico no Quora ou no Reddit os atrai como banana atrai moscas; muito me surpreende que agora até os grupos de Whatsapp estejam cheios disso também; incomoda, dá trabalho ficar lendo e averiguando, mas mesmo assim eu celebro isso porque, afinal, é o que desejamos em uma sociedade ilustrada e científica, certo? De anti-intelectualista já bastaria a nova direita conservadora brasileira, certo?

Mas, e quando eles, a nova direita extrema, são os maiores beneficiados desta onda de hiperinformação? Quer dizer, não falo de hashtags que de tão falsas sobem com erros de português no TT do Twitter e por lá ficam. Tampouco de vídeos em alta no youtube que só estão lá porque hackeiam os algoritmos que dão pertinência para política; falo, entre outras coisas, do cultismo à figura de um charlatão como o Olavo de Carvalho cuja falsidade é tão difícil de desmascarar quanto é a capacidade de alguém de abrir um livro.

Não tenho nada contra ele nunca ter se formado em uma faculdade, muitos gênios nunca fizeram. Nem me importa que ele brinque com a opinião pública quando flerta com o terraplanismo só para depois voltar atrás e o chamar de figura de linguagem — é o que os charlatões fazem. O que me incomoda de verdade é que ele não é nem profundo nem verdadeiro — é apenas mais um homem tóxico com acesso a internet — que usa de palavras rebuscadas para ser diferente.

Capilla del Monte, Argentina 2018

Dito isso, lembremos que o presidente no seu acesso ao vivo quando assumiu a presidência tinha consigo sobre a mesa apenas uma Bíblia, uma Constituição e um livro do Olavo de Carvalho (conta a favor dele não haver uma 765, talvez aguardando a próxima live em 2020); a mensagem não poderia ser mais clara: o anti-intelectualismo, o conservadorismo e a extrema direita que Olavo de Carvalho representa tinham chegado ao poder. Era um caminho sem volta para o escritor que não iria nunca ser estudado nas escolas como filósofo, mas sim ele mesmo como matéria de história. O projeto de poder submetendo o projeto intelectual.

O Brasil passa pela guinada de direita e o brasileiro pelo sonho do milagre econômico. Eu entre eles, que poderia muito bem passar por um esquerdista de iphone; entendo que as causas do estado de coisas no Brasil hoje são bem claras— toda revolução leva à uma opressão maior e mais contundente — e não, ninguém quer se tornar uma nova Venezuela, mas, aí está a pegadinha, até que ponto o medo de se tornar a nova Venezuela não é responsável pela guinada de direita extrema que nós tomamos? Países e economias se recuperam, mas o barulho da campanha estava alto demais para nos deixar pensar. A democracia depende de um eleitorado esclarecido para ser saudável, mas como lidar com um país que não conhece a si mesmo, ou de pessoas que não sabem quem são ou de onde vieram? Sem querer correr o risco de parecer repetitivo ou atrasado, onde está o “País do Futuro” que nos foi prometido?

Capilla del Monte, Argentina 2018

Aí que entra o hype da última semana: uma moeda única para o Brasil e para a Argentina. A piada geral do Peso Muerto é realmente hilária, mas, para dar uma de charlatalho aqui vou dizer que isso também é uma figura de linguagem, um mito, uma nova ideia; o BC já rechaçou a ideia como mais um disparate do Presidente, mas tenho aberto aqui do meu lado um livro de economia que aponta que a máxima de Friedman é quem está por trás destes disparates: “os governos devem se restringir a controlar a oferta e demanda de moeda”. Isso porquê a moeda deve crescer a uma taxa modesta e constante — a economia não gosta de saltos disruptivos.

Eu sou a favor da moeda, Sr. Presidente. E que com ela possamos finalmente estar mais próximos de nossos vizinhos e quem sabe adotar uma segunda língua de fato. Mais do que isso, vamos cotar nosso dinheiro no valor que hoje têm a literatura de Borges, ou da política (para não fica só na Argentina) do Mujica; vamos cotar nosso novo pesinho/real com o valor do tango tanto quanto o do samba, da escolaridade universitária massiva da Argentina, da política de redução de danos contra as drogas que o Uruguai utiliza, porque não apenas o dinheiro tem que circular, as ideias também; vamos cotar nossa nova moeda com os prêmios nobel deles e com as nossas copas do mundo; com a consciência que eles têm da ditadura que nós nem sonhamos; com a nossa incrível capacidade de fazer piada de nós mesmos, por que não? Bolsonaro, aquele gênio injustiçado, um mártir da democracia.

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